Brasil, Crônicas

Dá um sorriso para mim?

16/12/2014
Criança sorrindo - foto: Rosana Prada

Desde que eu me mudei para São Paulo, eu vou ao hospital visitar a minha avó materna que está internada. Eu pergunto se ela está bem, se quer que levante ou abaixe o encosto da cama, se quer um lencinho para assoar o nariz, dou comida e água. Eu canto Roberto Carlos, falo da vida, elogio a unha pintada e a distraio da melhor maneira possível. Quando vou embora, as enfermeiras perguntam para ela:

Quem esteve aqui, Dna. Sylvia?”

Ninguém”, ela responde.

foto: Hey Paul Studios

foto: Hey Paul Studios

Todo dia é assim, eu agrado a minha avó e ela se esquece de mim. A falta de memória se deve ao Alzheimer que apaga as suas recordações.

Minha avó divide o quarto com outra senhora que está com câncer terminal. Ela está lúcida, conversa pouco e sente ciúmes da minha avó. Você sabe por que?

Porque minha avó tem quatro filhas que se revezam no hospital enquanto ela tem dois filhos que moram em cidades distantes e quando a visitam ficam 15 minutos e vão embora. Eles mal olham para ela e só reclamam dos 10 mil reais gastos num quarto individual.

Hoje, ao visitar a minha avó cheguei como sempre; falante e alto astral.

Oi vó, como você está? Comeu bolo? Eu vim te visitar”

Na outra cama, a senhora me observava. Num ato rápido, eu girei os pés, virei para ela e perguntei: “E a senhora como está? Tem se sentido melhor?”

foto: Christiaan Triebert

foto: Christiaan Triebert

Ela estava sem dentadura, mas mesmo assim abriu um largo sorriso, concordou com a cabeça e seus olhos se encheram de lágrimas. A minha atitude foi espontânea e quando voltei para casa, pensei muito nela e agradeci por ter um coração bom e saber dividir afeto, mesmo com  estranhos.

Meu recado de hoje é que vocês valorizem as pessoas que lhe cercam e não abandonem os idosos porque nós também chegaremos lá. Quando eu for velhinha e se um dia estiver no hospital, eu espero receber um sorriso seu.

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