Brasil, Crônicas

E se eu morrer amanhã?

26/03/2014
foto: khrawlings

No fim de semana passado eu reencontrei uma amiga de infância, daquelas que você passava o dia inteiro pulando amarelinha e brincando de esconde-esconde. Nós perdemos contato e durante 15 anos mantivemos uma amizade de ‘curtidas’ pelo Facebook. Agora, sentadas frente a frente, ela me contou um pouco sobre a sua vida.

Eu tive câncer aos 26 anos. Um dia, me deitei de bruços na cama e senti um caroço no seio direito. Fui ao médico, passei por uma cirurgia e tirei o nódulo. Foi feita a biópsia e descobriram que eu precisava retirar a mama.”

Mas você colocou silicone?”, eu perguntei.

Não. Eu uso uma prótese móvel, olha”, ela puxou o vestido para me mostrar e continuou contando mais detalhes. “Eu fiz mais de 50 sessões de quimioterapias. O cabelo foi caindo e eu mesma raspei a cabeça até ficar carequinha. Eu engordei 30 kg, mas já emagreci 20 kg.”

E hoje você está curada?”, eu quis saber.

Eu estou com metástase e o câncer se espalhou para o pulmão e axila. Eu tomo remédios e está sob controle.”

Mas quando você descobriu tudo isso o médico lhe deu uma perspectiva de vida?”

Sim, quatro meses. Eu sobrevivi à estatística e depois ele me deu mais cinco anos de vida. Ano que vem é o último.”

O que você faz para não pirar? Você curte a vida adoidada? Como é que é?”

foto: Bill McChesney

foto: Bill McChesney

Eu não penso muito, na verdade. Eu vivo, em setembro, por exemplo, eu vou me casar”, ela disse.

Durante conversa, ela ainda me contou que por causa da quimioterapia e dos remédios ela não pode tomar sol e nem ter filhos porque está na menopausa. Eu fui embora com a história na cabeça e todos os dias, em algum momento, eu me perguntava: e se fosse comigo?

Eu nunca tive um médico me dizendo um número de anos, dias ou horas de vida, mas o mundo me dá exemplos todos os dias.

1 – Cláudia da Silva Ferreira baleada durante troca de tiros entre policiais do 9o BPM e traficantes do Morro da Congonha. Em seguida, foi arrastada por um carro da PM por cerca de 250m batendo contra o asfalto. Cláudia morreu com 38 anos, deixou quatro filhos e trabalhava como auxiliar de limpeza.

MH3702 – O avião da Malaysian Airlines (MH370) desapareceu com 239 pessoas durante um voo para Pequim. O premiê da Malásia, Najib Razak, afirmou que o voo teria “terminado” no sul do oceano Índico, sem sobreviventes.

Nestes casos, nenhuma das vítimas foi informada que uma fatalidade aconteceria em suas vidas. Comparando a história da minha amiga e os exemplos que estampam as capas dos jornais, eu só posso concluir que devemos a nós mesmos respeito e gratidão à vida.

foto: Nick Saltmarsh

foto: Nick Saltmarsh

Chega de dizer: amanhã eu começo uma dieta, amanhã eu mudo de emprego, amanhã eu vou ao médico, amanhã eu ligo para me desculpar. E se não houver o amanhã? Enquanto muitos se enganam com desculpas, poucos estão conscientes da necessidade de celebrar cada dia como uma nova vida.

Por isso, agradeça por ter os dias a seu favor, sejam eles tantos quantos forem possíveis.

Ps: O câncer de mama ainda é o tipo da doença que mais mata as mulheres entre 35-54 anos em todo o mundo. A cada 10 mulheres diagnosticadas com esse tipo de câncer no Brasil, três morrem por conta da doença, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva, órgão do Ministério de Saúde.

Agradecimentos à Maythe Gimenez que permitiu que sua história ilustrasse esse post.

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2 Comments

  • Reply Carolina D'Andrea 05/03/2015 at 10:14 pm

    GRANDEEEE Maythe!

  • Reply ELaine Valle 10/07/2015 at 5:18 pm

    Ja tive uma pessoa com cancer bem proxima a mim, e me peguei pensando a msm coisa. Dsd entao percebi, que posso nao morrer disso, mas nao estou livre de ser atropelada na rua hj, ou ter algo subito.
    Dsd entao, decidi viver minha vida, do meu jeito com a ctz q se isso acontecer, EU VIVI

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