Crônicas, Londres

Eu sou UE

24/06/2016
timeshighereducation.com

Hoje, a primeira coisa que eu fiz quando acordei foi entrar no site da BBC. A chamada de capa era curta: UK vota por sair do UE.

Screen shot 2016-06-24 at 17.44.57

A sensação imediata foi de vazio. Eu me arrumei rapidamente e saí para trabalhar. Enquanto caminhava sozinha na rua o pensamento constante era: ‘Algo mudou’.

Quando eu entrei no metrô logo vi a diferença. Pela primeira vez em quase seis anos que eu moro em Londres, as pessoas não estavam mexendo em seus celulares. Elas se encaravam profundamente como se perguntassem aos ingleses: você votou no referendo para eu ficar ou sair? Entre os europeus, a troca de olhares, tinha mais cara de: “E agora? O que a gente vai fazer?”

Eu cheguei em St James Park e fui ao Pret a Manger comprar o meu café da manhã. Ali eu diria que 90% dos trabalhadores são imigrantes. Eu peguei um sanduíche e segui até o caixa. O atendente me deu bom dia e perguntou como eu estava.

“Mais ou menos, né. Eu vou ter que sair.”

Os outros funcionários que estavam de costas preparando cafés ou assando croissants se viraram para mim. O caixa suspirou e me disse: “Eu também”.

Eu paguei o lanche e me despedi. Ele me desejou um bom dia e eu:

“Um bom futuro para todos nós”.

Expressar o que eu sinto tomaria páginas, mas para resumir, de alguma forma…

Eu não concordo com a saída do Reino Unido da União Europeia. Isso não é por eu morar na Inglaterra, mas pela maneira como as relações em geral estão caminhando. É o afastamento gradativo entre os humanos. Para mim sair da UE é um retrocesso cultural, social e de desenvolvimento. É a desvalorização da diversidade.

Segundo as estatísticas mostrada no site da BBC, a maioria dos jovens votaram para permanecer.

Screen shot 2016-06-24 at 19.52.17

Entre os que trabalham comigo, muitos me disseram que seus pais votaram para sair.

“Os mais velhos escolheram o futuro que a maioria dos jovens não quer. Isso não faz nenhum sentido”, eu disse e eu também não entendo como alguns filhos de imigrantes votaram para sair.

Em seguida, teve o discurso do primeiro-ministro David Cameron renunciando o cargo após a vitória do Brexit.

“Agora já era”, meu irmão que também mora aqui me disse.

Screen shot 2016-06-24 at 19.33.58

A frase que me mais me marcou do pronunciamento de Cameron foi:

“Eu farei o que puder como primeiro-ministro para manter o barco em equilíbrio nas próximas semanas e meses, mas eu não acho que é certo para mim ser o capitão que orienta o nosso país para o seu próximo destino”.

Nem ele acredita mais.

“O que eu vou fazer da minha vida?”, eu dramatizava. Um dos meninos que trabalha comigo ajeitou a camisa e me disse:

“Bom, se você quiser eu caso com você”.

Todos os outros ingleses bateram palmas e riram. Eu, a mulher independente, agora observa um novo cenário na Inglaterra. Uma amiga inglesa também se ofereceu para casar comigo.

Essas atitudes provam que existe solidariedade de muitos ingleses. Eles não querem que seus amigos europeus vão embora.

Eu também não quero ir, mas talvez chegou a nossa hora de descer do barco e deixá-lo partir. A única certeza que eu tenho é que a decisão de uma nação não controla o nosso destino.

#EusouUE #OneLove

293 total views, 2 views today

You Might Also Like

No Comments

Leave a Reply